24/01/21 • Por Yále Cristina (kneko).
Não é de agora que a leitura é essencial para o desenvolvimento humano, do pensamento crítico e um instrumento de educação e instrução ao ser humano. “Do sonho à publicação: o alcance literário das fanfics” dissertação escrita por Nicolle Lemos Pinheiro, em 2014, para sua pós-graduação em Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, apresenta duas possíveis vertentes para a origem deste tipo de escrita ficcional. Apresenta-se primeiro, a releitura dos folhetins franceses do século XIX. Os folhetins geraram certa democratização da leitura em um contexto de alto analfabetismo e centralização cultural por parte das classes dominantes, trazendo impresso o material literário até então restrito a este público. Em segundo lugar, ela apresenta, a mesma influência dos folhetins, reinventado ao longo do tempo, tendo como subprodutos a radionovela e a tele nova, ressurgindo no contemporâneo, a web novela e a fanfic, vinculada a web e redes sociais.
Mas quem nunca desejou que a história não acabasse por ali? Ou que pudesse mudar aquele final? Trocar algum casal? São essas questões levantadas pelos leitores/fãs que passam a imaginar essas respostas, escrever e compartilhar essas novas histórias, formando as fanfictions.
O autor de fanfiction é aquele leitor que, ao fazer esse preenchimento das lacunas, vai além no seu processo de interpretação e encoraja-se a registrar seu trabalho, fruto de suas especulações, que se torna mais elaborado à medida que passa a ser escrito. Embora, atualmente, a criação de episódios extras ainda seja o grande atrativo da prática, também podem ser encontradas fanfictions cuja extensão e trama permitem classificá-las como verdadeiros romances, e mesmo os originais, que lhes dão vida, não estão mais restritos a séries televisionadas. (Vargas, 2005)
Vargas, foi uma das primeiras pesquisadoras brasileiras a publicar um livro com o tema fanfiction. Ela apresenta em seu livro, que a produção da fanfictions começou pela iniciativa de fãs que sentiam necessidade de estender o contato com o universo ficcional por eles apreciado. É criado um laço afetivo tão forte com o material original que não lhes bastam o material original, passa a ter a necessidade de interagir e interferir naquele universo, modificando ao seu gosto.
E o que são, exatamente, fanfictions?
O termo vem da fusão de duas palavras da língua inglesa, fan e fiction, fã e ficção, histórias criadas pelos leitores e fãs sobre a história que leram originalmente. O termo é usado no mundo inteiro independente da língua em que será escrita a fanfiction. Podem ser chamadas tanto como fanfiction, fanfic ou apenas fic.
As fanfictions são formatos de escrita digitais da web voltados que vem despertando o interesse do público pré-adolescente e jovem. Não só pela forma de linguagem divertida e simples como também a possibilidade de ler e escrever sobre tudo, fora a comunicação virtual e extensa visibilidade online. A forma como os escritores de fanfics cativam com histórias alternativas que o público pede para que sejam escritas, cria um vínculo maior entre leitor e obra original, incentivando mais a leitura. Normalmente baseadas em filmes, livros, quadrinhos, mangás, dentre outros. Envolvem cenários e personagens da obra original, podendo ainda fazer a junção de duas ou mais obras diferentes, chamados crossovers. Muitas histórias além de cruzarem seus enredos e personagens, também introduzem personagens novos criados pelos próprios autores.
As histórias são produzidas e disponibilizadas na internet em websites construídos e gerenciados pelos próprios fãs e autores dessas histórias, sem nenhum fim lucrativo tanto para os para os autores como os moderados dos sites, são passatempos dos fanficqueiros – autores das fanfics – o qual dedicam muito tempo a escrevê-las. Por mais que o termo venha de origem americana, são encontrados inúmeras fanfics em Língua Portuguesa.
As fanfics abordam todo o tipo de obra original imaginável. Desde de Harry Potter à Rebeldes, Star Wars à Death Note, seriados, jogos, filmes, livros, quadrinhos americanos à mangás e animes. Dentro deste aspecto, Alencar e Arruda, 2016, apontam que o gênero ficção é o que mais atrai o público jovem atualmente. Surgem sempre novos filmes, novas séries e devido ao sucesso muitos campeões de bilheterias atualmente são os filmes baseados em livros e/ou quadrinhos de ficção.
Para se ter um pouco da noção da variedade das obras adaptadas para fanfics, de acordo com o site Social Spirit, um website próprio para compartilhar fanfics, em seu ranking de fanfics mais lidas e escritas, são do mangá shonen japonês escrito e ilustrado por Masashi Kishimoto, publicado em 1997, Naruto, contabilizando no dia 05/11/2017 o total de 41.856 fanfictios e em segundo lugar e terceiro lugar respectivamente, o mangá shonen escrito e ilustrado por Hiro Mashima, publicado em 2006, Fairy Tail Com 12.357 fanfics e o jogo online Amor Doce produzido pelo estúdio Beemoov Games, com 10.794 fanfics. O site Fanfictions.net contabilizou o número impressionante de 117.000 fanfictions do seriado Supernatural, criado por Eric Kripke, em 2005, e 42.220 da franquia Star Wars, criado por George Lucas. Porém, deve se ressaltar que estes números enganam muitas vezes. A maior parte do que os amadores criam é terrivelmente ruim; ou apenas com o intuito de tirar sarro da obra original. Como esses sites, são plataformas onde pode-se comentar dar notas e avaliar a história é uma forma de diminuir esses tipos de brincadeiras e até mesmo incentivar alguém a melhorar sua escrita.
O formato fanfic também possui gêneros para definir os assuntos abordados em cada história. São mais de vinte gêneros para definir as histórias, e cada uma delas pode ter quantos gêneros o autor desejar. Alguns exemplos de gêneros mais usados: crossover, (fanfics onde ocorre o encontro de dois universos, não necessariamente de autores diferentes), ecchi, (no ocidente, é usado para histórias que apresentam sexo ou nudez implícitos) longfic (termo usado para fanfics de longa duração), one-shot (fanfic com capítulo único), entre muitos outros.
Há inúmeros outros gêneros de fanfiction cada um servindo unicamente para expressar os acontecimentos, cenários e personagens que compõem a história.
De outro lado da história, as fanfictions não são sempre incentivadas e vista com bons olhos, pelo contrário costuma até ser um assunto polêmico. Há escritores que são contra a prática das fanfictions por acreditarem que depreciam o trabalho original e funcionam como uma espécie de plágio, até mesmo proíbem que escrevam fanfics de suas histórias.
Vamos há alguns exemplos.
O escritor George Martin, famoso pela série épica “As Crônicas de Gelo e Fogo” que virou a série Game of Thrones, é totalmente contra as fanfics. Em entrevistas e até mesmo em seu blog pessoal, ele já abordou o assunto dizendo que “seus personagens são dele e somente dele” e que não gosta que outras pessoas “brinquem” com seus personagens. Ainda acrescenta que fanfiction é apenas um “jeito preguiçoso” de escrever. Para George, felizmente, conseguiram proibir as fanfictions de sua obra original, o que mudou com o aparecimento da série de televisão norte-americana Game of Thrones, criada por David Beniof e D.B. Weiss, baseada nos livros de George Martin, que iniciou-se em 2011. Já que a série não era sua, as fanfictions voltaram a ser postadas. J.K. Rowling, escritora da saga Harry Potter é totalmente a favor das fanfics. Diz sentir-se lisonjeada por encontrar fanfics de Harry Potter e diz que a única coisa que a desagrada são os conteúdos adultos. Outra parte que torna as fanfictions mal vistas, são os seus conteúdos adultos e eróticos, tanto em fanfics amadoras como de obras já existentes. Tanto que, Cinquenta Tons de Cinza, por E.L. James, é originado de uma fanfictions de Crepúsculo, que também começou como fanfictions.
A verdade é que fanfictions são apenas formas de passa tempo, histórias de fãs para fãs, e não tem nenhum fim lucrativo quanto a isso e incentivam sim, a prática da leitura e escrita, tanto como estimula a criatividade.
A literatura na sociedade tem sido um poderoso instrumento de instrução e educação, sendo proposta como um equipamento intelectual e afetivo nos tornando mais compreensivos, críticos e abertos para novas possibilidades e outros olhares do mundo. É um fator indispensável de humanização já que atua no subconsciente e no inconsciente.


