17/02/21 • Por Yále Cristina.
“Do You Like Brahms?”, um dorama coreano lançado pela SBS produzido em 2020, que diz se tratar de um romance entre um pianista e uma violinista, mas despenca numa profundidade e realidade de quem é dividido entre seguir uma carreira profissional que lhe dê sucesso e boa vida, e o que realmente é carreira por pura paixão.
Song Ah, interpretada por Park Eun-Bin, é formada em administração e com vinte e cinco anos de idade decide aprender violino e ser aceita no curso de música da universidade onde já estudou. A mudança de carreira não é bem recebida pela família, situação apresentada logo nos primeiros episódios, não renderia dinheiro e Song Ah não possui talento nato para tocar. Confesso que ao ver essa cena, pensei logo que Do You Like Brahms, contaria a história de superação de alguém que ama algo em que não é bom, mas que se decide a aprender e consegue. Não costumo ler muitas sinopses, e em específico este dorama eu quis assistir pela trilha sonora, que falaremos depois.
Por outro lado, temos Joon Young, interpretado por Kim Min-jae, é um pianista já premiado e bem sucedido no ramo da música. Desde criança é reconhecido como talentoso nato no piano, ganhando competições e reconhecimento estrangeiro.
Ambos se conhecem e o romance, digamos a ponte inicial do dorama, começa a desenrolar. Mas é mais do que isso.
Pularei a parte do romance, com todo respeito, o que quero escrever aqui definitivamente não é sobre o romance dos personagens, nem o desenvolver do triângulo amoroso que se é apresentado, por mais que o próprio título faça referência a este acontecimento. Quero focar no que há por trás do romance, que é tratado como background do romance, mas que na verdade, na minha experiência assistindo, ficou completamente evidente e que merece sim uma reflexão.
Song Ah é podada o tempo todo de seguir seu sonho, e engana-se quem acha que este enredo é sobre superação. Acredito que Do You Like Brahms, é extremamente perspicaz ao apresentar um k-drama de romance…realista, onde os casais irão sim discutir, sonhos nem sempre vão dar certo, e sim, boletos e dívidas baterão à sua porta sem se preocupar de esperar você se estabilizar.
A carreira da personagem no violino é cheia de altos e baixos, Song Ah passa boa parte da narrativa se questionando se aquele era o caminho que realmente deveria ter escolhido, questionando, e às vezes até invejando quem tem talento nato, como Joon Young. Por vezes, Joon Young está descontente com a sua carreira, e Song Ah quer apenas ter a carreira dele. E convenhamos, quem nunca sentiu isso?
Além de todos os seus problemas com a carreira, ambos os personagens ainda precisam lidar com suas relações interpessoais, que vão desde a se apaixonar pelo amor de infância da sua amiga à ter que lidar com sentimentos do passado à dívidas de um pai irresponsável à um triângulo amoroso formado entre você, seu melhor amigo e sua melhor amiga, e por aí vai.
Não irei abordar o romance, mas seria uma oportunidade perdida não explicar, nem que seja o mais resumidamente possível, a história por trás do título deste dorama. Sendo um dorama de música clássica, Do You Like Brahms? Desenvolve o enredo em volta de Brahms, um compositor e pianista da época do romantismo, ele era amigo de um casal, Clara e Robert Schumann. Boatos surgiram na época que Brahms era apaixonado por Clara e que até viveram um romance, nada comprovado. A única evidência, ainda que especulativa, do romance, é a sua música em si. Ainda assim, a amizade entre os três durou. Robert com uma crise severa depressiva, foi internado em um manicômio, onde ficou dois anos e faleceu em 1856. Clara morreu 1896, dois anos depois, Brahms morreu. Ele nunca se casou.
Do You Like Brahms mostra que de fato a vida se impõe. A vida nos aperta e nos cobra. Nos solta e nos diverte. Nos bate e assopra. Ensina que comunicação é a base de qualquer relacionamento. Nos mostra que os amores vêm e vão. Que o tempo muda e amadurece sentimentos, e nem sempre o que a gente quer, é o que deve ser.
Abdicar de certos desejos, sonhos, amizades e romances, é dolorido e por vezes necessário para continuarmos saudáveis, para continuarmos vivendo e sobrevivendo. É ou não é uma narrativa de pura identificação?
Ouvi muito de pessoas com quem comentei sobre o dorama “mas eu quero assistir algo que me faça acreditar nos meus sonhos” ou “quero ver superação, não quero tristeza”.
De fato, um final feliz aqui vai depender do seu ponto de vista. Pra mim, foi perfeito. E agridoce.
Acho triste pensar que a arte deve sempre corresponder as nossas expectativas e nos colocar na bolha de “quero tudo feliz e lindo porque assisto para me divertir”, tudo bem, terão inúmeras artes por aí muito boas para que você apenas se divirta. Como terão outras que não, e isso é bem óbvio. Não indico Do You Like Brahms para quem quer um dorama de romance fofo, afinal é um drama. Indico para quem quer uma boa narrativa, dramatização e show de atuação de todos os atores.
E se você gosta de música clássica, esse aqui é o seu momento! O modo como a música clássica se encaixa na narrativa, desperta interesse e conta a história junto com as cenas, diálogos, é mágica. E não precisa entender de música clássica para assistir, é extremamente acessível. A trilha sonora, que foi o que me despertou para assistir, nos ganha em cantores já conhecidos para quem curte música coreana (K-POP) como Taeyeon (solista e integrante do SNSD), Chen e Baekhyun (solistas e integrantes do EXO), Punch, Heize entre outros, até introduzir a música clássica, as peças lindas como a principal, Träumerei.
Talvez, “Do You Like Brahms?” te encante, te emocione e te faça refletir, e talvez, te faça sentir tédio, raiva e achar parado. Mas, sinceramente, nada disso é um argumento ou demérito para uma obra tão profunda, sensível, poética e realista.


